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Obrigado por não ter curiosidade

Em mais um conto da boleia, um caminhoneiro relembra a viagem em que puxou uma carga lacrada pesada demais para o que dizia o papel. Entre alertas velados, ruídos inexplicáveis no baú e uma entrega rápida e estranhamente silenciosa, a estrada mostra que nem toda carga foi feita para ser questionada. Um relato sobre limites, sobrevivência e a sabedoria de quem aprende que, às vezes, seguir viagem é a única escolha.

Carga lacrada sempre dá história. Quem diz que “não”, mente ou nunca puxou uma. Dessa vez era simples: sair de Cubatão, entregar em Palmas. Nota fiscal limpa, empresa séria, prazo apertado. Só estranhei o peso: o manifesto dizia uma coisa, o eixo sentia outra.

Na primeira balança, o ponteiro tremeu. Dentro do limite, mas no limite do limite. Liguei pro despachante. Ele disse só uma coisa: “Segue, tá tudo sob controle. Não abre, não para em lugar estranho.” Isso, pra quem vive da estrada, é o mesmo que um alerta. Era daquelas situações que começam quietas e terminam com sirene — se é que terminam.

Na segunda noite de viagem ouvi batidas vindas do baú. Secas, espaçadas. Pensei em dilatação da carga, estrada ruim, cansaço. Desacelerei. Até que ouvi algo parecido com respiração. Alta. Ritmada. Parecia ronco de quem dorme cansado. Resolvi conferir. 

Parei num posto grande, cheio de luz, movimento. Abri a porta lateral só por um palmo. O suficiente para examinar lá dentro. Escuro total. Silêncio absoluto. Olhei minuciosamente, dei batidas com a mão. Nenhum ruido. “Uma carga normal”, pensei . 

Fechei. Segui em frente.

No destino, a descarga foi rápida demais. Num galpão meio abandonado, o rapaz que ficava na guarita de segurança avisou: seque até o final e uma mulher loira vai te receber. 

Ele não me contou que a mulher usava um tapa-olho na visão esquerda e botas escuras, de cano alto. A loira me cumprimentou e perguntou se eu tinha feito uma boa viagem. Mas ela não queria saber. Imediatamente me deu as costas e começou a dar ordens para os peões numa língua que eu não entendia. Eles obedeciam. 

Ninguém conferiu nada. Só pediram a chave, abriram tudo de uma vez e logo, logo, mandaram eu ir embora. Um dos caras, com cicatriz na testa, me olhou e abriu um sorriso faltando dente pra todo lado, sorriso de quem já não mastiga nada deste mundo.

Se faltava dentes, sobrava gentileza: “Obrigado por não ter curiosidade” – disse. 

Na estrada novamente, no caminho de volta, veio a sensação do “dever cumprido”. Mas nunca esqueci. 

Penso que um dia, quando largar a estrada, vou contar para meus netos dar gargalhadas o dia em que transportei um fantasma que pesava muitas toneladas. 

Hoje, quando lembro daquela viagem digo para mim mesmo: “tem coisa que não foi feita pra chegar ao destino”.

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