ARLINDO ARMANDO
Não foi falta de aviso. A estrada deu todos os sinais: silêncio demais no celular, rádio praticamente mudo, carro me seguindo tempo demais, aquele aperto no peito que não combina com a paisagem. Eu ignorei. Às vezes, o caminhoneiro confunde coragem com teimosia. Às vezes, a estrada cobra.
Foi na subida da Serra do Jacurutu, trecho antigo de pista simples entre dois paredões de pedra e curva em cotovelo que obriga qualquer bruto a subir na manha. Ali não tem acostamento largo, não tem área de escape, não tem sinal de celular que preste. Só mata fechada de um lado, barranco do outro e, de vez em quando, uma estradinha que parece levar pro fim do mundo. Subida com aquele silêncio pesado que até engole o ronco do motor.
Caminhão carregado sobe gemendo, devagar, previsível — exatamente do jeito que quadrilha gosta. Foi ali que eu vi o farol colando no retrovisor e entendi que, naquela serra, quem ia ditar o ritmo não era eu.
Foi rápido. Um carro fechou na frente, outro colou atrás. Quadrilha com armamento pesado — não pra trocar tiro, mas pra garantir obediência imediata. Arma que impõe respeito só de ver o cano largo. O objetivo não é confronto. É congelar o motorista em segundos. Eu fiz o que qualquer motorista com família em casa deve fazer: não discuti com o destino.
“Desce e deixa a chave.”
Desci. Pensei na família, na mulher, nas crianças. Pensei que aquele caminhão podia até ir embora, mas eu precisava voltar. Os caras foram profissionais, educados até — coisa que me irritou mais do que xingamento. Um deles ainda falou: “Fica tranquilo, chefe, é só a carga.”
E era aí que a ironia morava.
Horas depois, já de carona com a polícia, veio a notícia: o caminhão foi encontrado. Carga abandonada. Intacta. Levaram até um ponto e desistiram. Motivo? Produto errado, cliente errado, logística errada.
Um policial riu: “Os caras acharam que era coisa boa. Quando abriram, deu ruim.”
O que eu puxava não era eletrônica de varejo, nem cigarro, nem carne, nem bebida — essas que têm mercado paralelo pronto pra girar.
Mas, visto de fora, parecia prêmio de loteria: caixa padronizada, etiqueta de tecnologia, marca famosa estampada grande na lateral. Quem bate o olho pensa em notebook, tablet, celular. E aí o olho do crime brilha.
Só que não era produto de loja.

Era terminal de caixa corporativo, feito sob encomenda para grande rede de supermercado. Equipamento fechado, com código travado de fábrica, número de série vinculado a CNPJ específico e ativação remota controlada pelo fabricante. Sem registro no sistema, não liga. Sem chave digital, vira peso de papel.
Não tem mercado paralelo pra isso. Não serve em casa. Não serve em lojinha. Não funciona fora da rede contratante. E quando o caminhão saiu da rota, o lote inteiro foi bloqueado. Se tentassem ativar, disparava alerta.
Roubo bom, pra quadrilha, é o que gira rápido.
Equipamento corporativo bloqueado?
Isso é prejuízo.
Quando abriram o baú esperando eletrônico “quente” e deram de cara com máquina que não funciona sem credencial digital, entenderam que tinham sequestrado sucata cara. Descobriram tarde demais.
Depois fiquei sabendo do detalhe: o informante deles viu a marca famosa nas caixas durante o carregamento e vendeu a ideia como “caminhão de informática”. Não sabia — ou não entendeu — que aquela mesma marca fabrica equipamento corporativo sob contrato, impossível de revender. A quadrilha confiou no rótulo e não na informação.
Cheguei em casa no dia seguinte, atrasado, sujo, mas inteiro. As crianças perguntaram se o caminhão tinha sido sequestrado. Eu disse que sim, mas que ele também não gostou da ideia e foi deixado num canto. Ela me abraçou e falou: “Viu? Até bandido escolhe briga errada.”
No bar da esquina, os amigos gargalharam: “Primeira vez que vejo ladrão devolver carga.”
Outro exagerou, quase ofendeu: “Também, né… você só carrega tranqueira.”
Hoje eu conto essa história rindo. Mas aprendi. A estrada não perdoa descuido e ensina: carga pode ir, caminhão pode ir. Eu não. Eu preciso voltar. Eu tenho gente em casa me esperando.













