ARLINDO ARMANDO*
Dezoito anos puxando carvão. Primeiro, em Minas Gerais, sô. Peçanha para Barão de Cocais. Barão para a siderúrgica Mannesmann, em Belo Horizonte, na Cidade Industrial, próxima ao Barreiro.
Fila de depósito? Hoje o povo reclama de aplicativo lento. Naquele tempo a gente esperava o dia virar noite e virar dia de novo.
Carreguei de tudo: secos e molhados, cimento, madeira, minério pesado que fazia o caminhão gemer na subida. Rodei o Norte quando a estrada era promessa de política. O trajeto era de Paragominas, no Pará, levando madeira paracaju em BH. Um mês e quinze dias para ir e voltar. Hoje fazem em uma semana. Hoje é tudo diferente. Não tem mais aquele silêncio comprido da mata nem aquela sensação de herói desbravando o sertão.
Madeira paracaju era riqueza da mata e peso na boleia. A paracaju (em algumas regiões chamada também de paraju) é madeira de lei da região Norte, muito explorada nas décadas de 70, 80 e 90, principalmente no Pará. Não é madeira leve nem dócil. É pesada, resistente, de fibra fechada, cor castanho-avermelhada quando recém-cortada. Quando seca, escurece.
Para o caminhoneiro, paracaju significava três coisas: peso bruto, viagem longa e muita responsabilidade.
Com o carregamento no limite, o caminhão sentia, a suspensão rangia. Subida exigia marcha reduzida e paciência. Paragominas–BH, por exemplo, podia levar mais de um mês entre ida e volta nos anos 80. Tinha asfalto, mas tinha estrada de chão, ponte improvisada, atoleiro na chuva e poeira no verão. E tinha o peso de uma responsabilidade danada porque a madeira de lei sempre foi carga visada. Assaltante sabia o valor. Subida era perigo. Era difícil para eles fazer a operação. Madeira pesada dá trabalho até para marginal. Às vezes nem levavam a carga toda, roubavam as toras menores, mais fáceis de transportar. Subida era uma guerra. A gente aprendia rápido: subir sempre em comboio. Caminhoneiro sozinho vira alvo.
A tora vinha bruta, ainda cheirando a mata. Dentro da cabine ficava aquele perfume forte de madeira recém-cortada misturado com diesel e cigarro. O motorista aprendia a distribuir o peso, amarrar direito, conferir corrente duas vezes. Madeira mal presa vira tragédia na primeira curva.
Hoje a logística é mais rápida, rastreada, regulamentada. Mas quem puxou paracaju no tempo da estrada vermelha sabe: não era só frete. Era braço, cálculo de ouvido, olho na inclinação da pista e fé de que o diferencial aguentaria mais uma serra.
Paracaju não era só madeira. Era um teste de coragem. E cada tora descarregada era a prova de que o caminhoneiro tinha vencido mais um pedaço do Brasil.
O posto de gasolina era raro. E ficavam sempre distantes da necessidade da gente. Eu levava tambor de 200 litros de diesel amarrado na carroceria. A reserva era sobrevivência. Celular? Não existia. Quem salvava era o rádio. Era ele que os colegas usavam para avisar: “Subida perigosa”, “Polícia mais na frente”, “Neblina cerrada à frente”.
Naquela época o caminhão quebrava e você virava mecânico. Diferencial começava a cantar? Encostava e desmontava. Caixa de marcha falhava? Rezava e freava no braço. Sujeira na entrada de ar, lona de freio gasta. Tudo a gente dava um jeito. Pneu esquentava? Parava. Esperava esfriar. Hoje é scanner eletrônico, o tal de termômetro a laser . Antes era ouvido, faro. O barulho e o cheiro falavam com você.
Dirigi muito Mercedes-Benz antigo de estrada, daqueles valentes, que aguentavam poeira, buraco e sobrepeso sem reclamar. Depois vieram os pesadões — Volvo, Scania —, máquinas de outro porte. Cavalo mecânico bruto mesmo: motor forte, torque alto, chassi reforçado, feito para não arregar.
Casei nos anos 80. Tentei sair da estrada. Não deu. Estrada chama de volta.
Vi coisa feia demais. No Piauí, seis anos sem chuva. Restaurante sem água nem pra lavar a mão. Uma vez, um acidente terrível, na beira da estrada, encontrei um motorista cortado e queimado. Cena que não sai da mente. Você não pode socorrer. Você sofre sem gritar e torce como um fanático para ambulância chegar. Não tinha Samu, demorava uma vida. A gente ficava ali parado, com o sangue esfriando por dentro. Socorri muita gente e socorro se for preciso. Amanhã alguém me socorre — sempre pensei assim. Aprendi que a estrada pede respeito e ensina que a vida segue mesmo após a pior desgraça.
Nunca briguei com meu sono. Sono é traiçoeiro. Ele cobra. Eu parava. Preferia perder horas a perder a vida. Não bebia um gole, nem remédio. Só fumava demais. Cada um com seu defeito.
Assombração? Nunca vi. Mas muita mulher bonita na estrada eu vi. Na lábia e na consideração a coisa funcionava. A gente na estrada e elas no café, nas cozinhas do posto. Cozinheira, garçonete, mulheres especiais que só existem naquele trecho que você passa tanto que vira conhecido, mesmo não morando ali.
Comida não era problema. Organismo de caminhoneiro tem que ser de avestruz. Sabe o avestruz? Engole pedras para ajudar a digerir. A gente encarava comida ruim. Arroz empapado, feijão ralo, bife duro feito sola. Ovo frito em gordura velha, salada murcha, macarrão sem sal. Café forte, mas queimado. Comia sem reclamar.
Porque pior que comida ruim na beira da estrada é seguir de barriga vazia. A gente engolia também ofensa, medo, saudade. Se reclamasse demais, não seria caminhoneiro.
Sempre dei carona. Noventa por cento eram professoras. Mulher séria, pasta no colo, olhando o relógio. Estrada ensina a admirar quem carrega livro e caderno.
E tem uma coisa que nunca contei.
Toda vez que eu dava carona pra professora, eu lembrava dela. Minha professora do ginásio. Eu, menino de interior, sentado na última carteira, com cheiro de poeira e sonho grande demais. Ela explicava geografia e falava do Norte como se fosse longe demais pra mim. Ela parecia uma miss e eu conseguia prestar atenção na geografia dela. Com os ensinamentos dela eu fui. Fui até o Norte. Fui além.
Nunca falei nada. Romance platônico, daqueles que a gente guarda como fotografia amarelada. Por causa dela eu sempre respeitei professora na estrada. Por causa dela que eu nunca deixei o sono vencer — porque ela dizia que responsabilidade é que afasta a preguiça. Responsabilidade, ensinava Dona Leda, era o que separava o menino de um homem crescido. Até hoje, quando passo por alguma escola na beira da rodovia, eu diminuo a velocidade. Olho. Sorrio. Agradeço.
O mundo ficou moderno. Mais rápido. Mais prático. Mas não sei se manteve a coragem dos caminhoneiros de antigamente. A nova geração é importante para renovar. Fico feliz, hoje, quando vejo iniciativas de ensinar os mais moços a guiar caminhão. Precisamos de jovens na boleia. Jovens que saibam que estrada não é só volante. É caráter.
(*) Texto inspirado nas histórias contadas por W.G.S., caminhoneiro com mais de 40 anos de estrada, que prefere não revelar o nome, mas apenas a experiência falando por ele.
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