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A Última Parada

Arlindo Armando

Era para ser só um cochilo rápido. Eu vinha rodando fazia horas, olho ardendo, cabeça naquele ponto em que você já não sabe se a placa diz “km 220” ou “coma um pastel”.

Vi um posto adiante. Luz amarela, letreiro antigo, daqueles que parecem sobreviver desde quando a estrada não tinha asfalto. 

Entrei. O pátio era enorme. Terra batida. E tinha caminhão demais para aquela hora da madrugada. Mas eram antigos, de muito uso nas estradas. Parecia encontro de caminhão aposentado.

Encostei meu bruto moderno ali no meio e pensei:

— Rapaz… aqui é tipo baile da terceira idade do diesel.

Entrei na lanchonete.

Atrás do balcão tinha um atendente magro, pele curtida de sol, bigode ralo, olhar tranquilo de quem já viu muita coisa acontecer na estrada. Antes que eu abrisse a boca, ele colocou um café na minha frente.

— Eu nem pedi… — falei.

Ele respondeu calmamente:

Quem fala demais dá bom dia a cavalo.

Perguntei:

— Tem pão com ovo?

Ele respondeu:

Quem tem fome não escolhe cardápio.

— Tá… então manda qualquer coisa.

Quem espera sempre alcança.

— Mas eu não estou esperando!

— A esperança é a última que morre— ele retrucou me encarando firme.

Eu fiquei olhando pra ele.

— O senhor só responde com ditado?

Ele deu de ombros e retrucou:

Em boca fechada não entra mosquito.

Nesse momento um caminhoneiro na mesa do lado riu.

— Relaxa, parceiro — disse ele. — Esse aí conversa assim desde 1978.

— 1978? — perguntei.

— Ou antes — disse outro motorista, mexendo no açúcar.

Eu comecei a achar o ambiente estranho. As roupas dos motoristas eram antigas, de outras décadas, como os caminhões. Então eu vi, numa parede, aos fundos, um painel cheio de fotos antigas, pregadas com alfinete. Fiquei curioso com tanta foto envelhecida. 

Fui direto para o balcão.

— Ô chefe… que história é essa?

O atendente olhou para o painel de retratos e disse:

Para bom entendedor, meia palavra basta.

— As fotos são muito de antigamente! Aqui é museu? 

Cada um colhe o que planta.

— Eu nunca tive gosto para coisa antiga – comentei desaprovando. 

Nunca diga nunca.

Um dos caminhoneiros no balcão comentou:

— Primeira vez que você vem, né?

— Primeira! — falei.

Ele balançou a cabeça.

— Então acostuma. Aqui, no balcão, ele só fala assim. 

— Por quê? 

Perguntei e fui interrompido pela lembrança. Naquele instante alguma coisa me cutucou na memória. Aquele jeito tranquilo, aquele rosto marcado… Eu já tinha visto antes. Olhei melhor para o rosto do atendente e arrisquei:

— Espera… você não era chapa lá no pátio de Uberaba?

Ele parou com a garrafa de café no ar e abriu um sorriso cansado. Aí confirmou, dizendo sim com o movimento de cabeça. 

— Quem é vivo sempre aparece – disparou marcando o nosso reencontro.

Era ele mesmo, o Waldir. Anos atrás descarregava e carregava caminhão no braço. Quando conheci  era um moço falante, parecia que tinha nascido para a estrada. Sabia organizar carga, equilibrar peso, puxar lona, amarrar corda e orientar manobras. Trabalho pesado e sem garantias, o valor a gente combinava ali mesmo e pagava em dinheiro ao final do trabalho.

O motorista que estava no balcão me chamou para um canto e pediu:

– Não pergunta nada para ele. Ele não gosta de falar do passado. Mas eu vou matar sua curiosidade.

Depois daqueles tempos de chapa, Waldir entrou num negócio de transporte. Apareceu um sócio, cheio de lábia e planos. Ele acompanhou o cara. Abriram uma firma de transporte. O dinheiro começou a aparecer rápido. Vieram caminhões próprios, sociedade, viagens, mulheres, festa, gente chamando de “meu amigo”. 

O ex-chapa sabia que sua história estava sendo contada e gritou em tom de quem ensina uma lição:

– Quem tudo quer, tudo perde.

A empresa cresceu depressa demais e ele acreditou em todo mundo. De repente, desabou tudo. Um sócio desviou dinheiro e sumiu. Um caminhão foi assaltado numa madrugada. Outro caminhão sofreu um acidente pesado na estrada, destruindo o veículo financiado. Em poucos meses o que parecia crescimento virou dívida e ruína. Ficou só. A família já tinha se afastado antes, cansada da vida descontrolada. 

– Amigo verdadeiro se conhece na dificuldade –  interrompeu novamente Waldir.

O caminhoneiro parecia saber tudo sobre a vida do meu antigo chapa. “Hoje ele serve café e lanches e diz que, aos poucos, tenta reencontrar quem ele era antes de tudo”, disse encerrando a história.

Eu agradeci a prosa e pedi a conta. Ao me despedir, pedi ao Waldir para ter muita fé que a vida recoloca as coisas boas na vida da gente. Ele respondeu com um sorriso:

– Não há bem que sempre dure, nem mal que nunca se acabe.

A estrada me ensinou muita coisa. Inclusive que, às vezes, a gente precisa perder o rumo para lembrar de onde veio.

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