ARLINDO ARMANDO
Naquele trecho da estrada, já perto de entrar na Bahia mais seca, a noite parecia um manto pesado sobre o corpo. Noite dessas que, basta o sol desaparecer, que o peito da gente sente um aperto estranho. Não de cansaço, mas um aperto que surge quando a gente sente falta de muita coisa. Aquela estrada tinha um ponto exato onde morava a saudade.
Ele vinha rodando desde cedo. Saudade de casa grudada no banco do carona, como sempre. Os meninos, numa parada, tinham ligado antes:
— Pai, traz alguma coisa diferente dessa vez…
Ele ri tentando dizer que seria difícil.
— O quê? Um caminhão novo?…
— Não… uma surpresa, disse a menina, a mais nova.
Prometeu qualquer besteira. Naquela hora da noite, nem sabia o quê.
Foi quando viu um vulto.
Primeiro, só uma figura, de cor branca e preta, no acostamento. Pequeno demais para ser gente, paralisado demais para ser bicho vivo. Reduziu. Apontou o farol alto na direção.
O que apareceu não foi bonito.
Um cachorro. Machucado. Sujo de estrada. Uma das patas meio torcida, como se tivesse sido arrancada do corpo, mas permaneceu, só parecia torta.
Ele nem pensou duas vezes.
Parou o caminhão.
Pegou um galão vazio, cortou no meio com o canivete e improvisou um pote. Despejou o resto da água que tinha. Aproximou devagar.
— Bebe, parceiro…
O cachorro demorou um segundo. Deu uma sacudida, balançou o rabo cumprimentando. Depois, sem pressa, encostou o focinho e bebeu. O estranho era que o cão não latiu. Só olhava.
E tinha um olhar de cachorro de cinema, como se fosse o ator principal. Um olhar que não combinava com abandono de cachorro faminto e nem com a pata ferida. Não era olhar triste. Era olhar firme de quem pede uma chance.
— E aí, parceiro…
O bicho não recuou. Também não avançou. Só sustentou aquele olhar desconcertante de tão humano que parecia. Olhar altivo, que encarava o motorista como se dissesse em voz alta: “você recebeu um chamado”.
O motorista, ainda na boleia, ficou sem entender se a oportunidade era do cachorro, ou se era o cachorro que tinha determinado uma missão para ele.
Então, abriu a porta da boleia e desceu devagar, como quem entra numa história que ainda não decidiu se é boa ou ruim.
— Bora. Não vou te deixar aqui.
O cachorro entrou sem hesitar. Nem cheirou, nem ficou pulando de um lado para o outro. Só subiu e deitou no banco do carona como se já soubesse o caminho – e o seu lugar de conforto.
E foi ali que veio o primeiro arrepio.
Porque aquele banco, por muitos anos, teve um dono… e agora, depois que o cãozinho se instalou, o banco do carona parecia ter um novo e definitivo dono.
Anos atrás, um carro de passeio fechou o caminhão. Ele, embora motorista experiente, perdeu o controle e o caminhão despencou numa ribanceira. Ficou uns dias entre a vida e a morte. Naquele acidente perdeu um companheiro que estava no banco do carona. Um desses caras bons, calados, que somem sem fazer barulho — desaparecem numa curva dessas que a gente não tem como evitar quando surge alguém dirigindo como um assassino.
Ele engoliu a emoção, olhou seco para o cachorro, fechou a porta e seguiu.
Na madrugada, depois de muito silêncio, tentou puxar conversa:
— Você não late não?
Nenhum movimento. Silêncio total.
— Nome… será que este cão tem algum nome?
E improvisou, insistiu, assobiou, sem sucesso: “Caramelo, Rex, Bob, Thor, Bidu, Teobaldo…”
– Ah, posso estar te ofendendo, senhorita. E tentou: “Mel, Luna, Jade, Lessie, Magrela, Bolinha, Mimi”…
Nada.
Mas quando ele comentou, em voz alta, quase sem pensar que ali estava um cachorro:
— Aquela curva ali… já levou um amigo meu…
A fala, em voz alta, era quase um comentário. Falou sem pensar que no banco do carona só havia um animal cansado.
O cachorro ergueu a cabeça.
Olhou pra ele.
E, pela primeira vez, soltou um ganido baixo — não era latido. Era quase um uivo contido.
E depois voltou a deitar.
O resto da viagem foi assim. Estranhamente tranquila. Como se alguém estivesse garantindo que tudo ia dar certo. Sem susto. Sem erro. Sem sono pesado.
Quando o dia clareou, já estava perto de casa, parou num posto conhecido só para esticar as pernas. Estacionou, desligou o motor e deixou a porta aberta para testar. O cachorro continuou imóvel, no banco. Com o mesmo olhar.
Na volta, alguns minutos depois, entrou com a sensação de que alguma coisa precisava ser entendida antes de chegar em casa.
Virou pro lado.
— Estamos quase chegando.
O banco estava vazio. Nenhum rastro.
Ele desceu do caminhão devagar, assoviou, olhou debaixo dos eixos, nada do cão.
Decidiu seguir. Mas ainda tentando compreender o que não cabia em explicação.
A porta da casa abriu antes que ele batesse.
Os meninos vieram correndo.
— Pai! Trouxe a surpresa?
Ele hesitou.
Olhou pra boleia. Depois pra eles.
Ia dizer que não… que não deu… que a estrada, que o tempo…
Mas parou. Alguma coisa mexeu no portão. Um barulho leve. Arranhando.
Eles olharam juntos. Viram que tinha alguma coisa ali. Foram até o portão e abriram uma das laterais do portão. O cachorro estava ali, do lado de fora. Sentado. Inteiro. Rabo abanando devagar, como quem reconhece um lugar que nunca viu.
Os meninos gritaram de alegria.
— Ele é nosso?!…
O caminhoneiro ficou parado. Sem resposta pronta.
Só com aquela certeza estranha, com aquela calma de compreender que às vezes a estrada devolve o que a gente perdeu — do jeito que pode.
O motorista respirou fundo e sorriu ao perceber que, sim, para alegria dos filhos, havia levado para casa “alguma coisa diferente dessa vez”…
— Ele pegou carona porque quer morar aqui — disse, abrindo o portão.
As crianças gritaram de alegria e já foram escolhendo um nome. O cachorro entrou como quem chega em casa.
E dessa vez… latiu.












