Um vídeo publicado pelo influenciador Janderson “Patrola” Maçaneiro trouxe para o centro do debate um problema antigo, profundo e ainda não resolvido: a guerra dos fretes baratos. Nas imagens de um antigo programa de TV, um motorista relata que está há mais de um mês sem conseguir “voltar para casa com dinheiro do frete”. É a realidade crua de boa parte dos profissionais que vivem na estrada, mesmo o vídeo sendo muito antigo.
O que Patrola fez foi apenas mostrar o que muitos preferem ignorar: o mercado de fretes voltou a operar em uma lógica de desespero, onde motoristas chegam a aceitar valores inviáveis para tentar fechar uma carga de retorno. E esse fenômeno, que sempre existiu, ganhou novos contornos com a explosão das plataformas digitais.
Se antes o “leilão ao vivo” — aquele em que um caminhoneiro derrubava o preço do outro — dependia de encontros físicos, hoje ele acontece silenciosamente na tela do celular. Em segundos, centenas disputam a mesma carga. E, quando há excesso de oferta e pressa para voltar para casa, o valor despenca.
É nesse ambiente que o piso mínimo de frete se torna mais do que uma política pública: vira uma linha de defesa.
Piso mínimo não é tabelamento — é custo mínimo para não trabalhar no prejuízo
A lei não define lucro para caminhoneiro, não impede negociação e não obriga embarcador a pagar mais caro.
Ela define apenas o custo mínimo para rodar uma operação com segurança e sem prejuízo.
Isso inclui:
- combustível
- desgaste do caminhão
- depreciação
- manutenção
- pneus
- riscos do trajeto
- amortização do equipamento
Ou seja: o básico para que o motorista não opere “no vermelho”.
Sem piso, o mercado não fica mais livre — ele fica mais injusto.
Quem tem poder econômico empurra os preços para baixo. Quem está sozinho na boleia aceita por desespero. É o desequilíbrio total.
Por que o vídeo de Patrola explodiu agora
A fala dele encontrou um ambiente perfeito para viralizar:
- entressafra em algumas regiões
- aumento da oferta de caminhões parados
- retração pontual em setores da logística
- plataformas ampliando concorrência em segundos
- embarcadores tentando reduzir custos
O resultado:
motoristas aceitando fretes abaixo do custo e voltando para casa sem conseguir fechar o mês.
Esse é o palco onde o piso mínimo se torna vital.
Não como benefício.
Mas como garantia de que ninguém seja forçado a trabalhar devendo.
Sem previsibilidade, não existe dignidade
Um caminhoneiro sem previsibilidade financeira perde tudo:
- capacidade de manter o caminhão
- pagar contas
- planejar o mês
- garantir a segurança da família
- incentivo para continuar na profissão
E isso num país que já perdeu quase um quarto dos motoristas em dez anos. Se o piso enfraquecer, a categoria encolhe ainda mais — e a logística brasileira entra em colapso.
O debate voltou, e não vai desaparecer tão cedo
As reuniões recentes com a ANTT, relatadas por representantes da categoria, mostram que o tema voltou para a mesa do regulador.
Não há acordo fácil, não há solução simples, não há consenso.
Mas há uma certeza:
sem piso, a exploração volta ao patamar do vídeo que Patrola expôs — e o país inteiro perde.













