Arlindo Armando
Tem noite que o rádio PX vira igreja.
Cada um entra com sua culpa, sua promessa, sua reza improvisada. Ou as piadas que todo mundo finge que não conhece.
No chiado, todo mundo é igual. A voz vem torta, mas a preocupação ou a alegria do caminhoneiro chegam limpinhas, sem ruído.
Hoje em dia, caminhoneiro resolve quase tudo no WhatsApp: grupo de frete, grupo da família, grupo dos colegas, grupo que só manda “bom dia com flor”.
Mas tem estrada que não pega nem pensamento ruim. Daquelas em que o celular vira enfeite e só serve pra ver a própria cara cansada na tela.
Era uma dessas.
Eu vinha numa viagem puxada, daquelas que o prazo mastiga o sujeito por dentro. Chuva no para-brisa e o asfalto brilhando igual cobra molhada. Celular: sem sinal. Internet: lenda urbana. WhatsApp: silêncio absoluto.
Sobrou o velho PX.
Canal 99: conversa na madrugada. Ninguém na escuta. Nem aviso, piada ruim e nem mensagens de salvação.
Quando alguém entrou, eu quase prestei homenagem. Mas agradeci.
— “Tem alguém aí?
A voz não parecia nova nem velha. Voz de quem não carrega culpa, mas quer ajuda.
— Onde você tá, parceiro? Perguntei e repeti: – Onde, parceiro?
— “Estou precisando de ajuda.”
Pensei em assalto, acidente, e resolvi pelo lado menos pior:
– Caminhão quebrou?
Ele não falou cidade, placa nem quilômetro. Falou sensação:
— “A estrada tá rodando. Passei pela mesma placa duas vezes. Vou reto e volto pro mesmo lugar.”
Pensei: cansaço, hipnose do asfalto, excesso de café ruim. Ou ele ia emendar com uma piada.
Até ele descrever:
— “Tem um barranco do lado esquerdo, uma árvore torta, que ninguém esquece de tão feia. É um ponto que não pega sinal.”
Eu respondi:
— Árvore pode ser torta. Feia, não.
Ouvi só um chiado e uma leve irritação de quem acha a resposta atrevida:
— “Como assim?”
— Ô parceiro… deixa eu te falar uma coisa. Árvore pode ser torta, seca, caída…
Ele riu, um riso de deboche:
— “Tudo que não serve mais é feio.”
— Serve pra quem? perguntei.
— “Pra ninguém. Coisa quebrada só atrapalha.”
A fala dele foi engolida por um segundo chiado, mas ele continuou:
— “Tem gente que também é assim. Torta, parada, ocupando espaço.”
Eu não quis esticar assunto. Ele também e foi direto ao ponto:
— Então, parceiro… confirma aí: estou depois do trevo de Novo Progresso, sentido Moraes Almeida.
Meu estômago gelou. Aquilo existia.
— Esse trecho é conhecido. Não pega sinal, não tem casa, não tem viva alma. Mantém a direita. Vai até ver um pátio velho de madeireira abandonada. Para ali.
Ele respondeu educado:
— “Não adianta. Vai terminar assim. Feio, igual a árvore. A estrada tá rodando. Vou reto e volto pro mesmo lugar. Então é aqui que tudo acaba.”
O rádio estourou num chiado grosso, como se alguém tivesse jogado areia dentro do som. Tentei chamar. Nada.
No dia seguinte, já claro, parei num posto em Itaigotira. A TV do balcão mostrava a notícia:
CAMINHÃO ROUBADO ENCONTRADO FORA DA PISTA
A carga: eletroeletrônicos de todo tipo, celulares modernos, tablets, TVs, caixas de som, fones de ouvido, computador portátil — tudo de alto valor e fácil de vender. A rota clandestina, sem escolta. Motorista: desaparecido. Não identificado. Sem celular. Sem documentos. Transportadora também sem nenhum rastro.
O caminhão estava num descampado, como se tivesse saído da estrada por vontade própria.
Sem marcas de frenagem.
O repórter fechou:
“O rádio foi encontrado ligado, no canal 99.”
E a imagem mostrou o microfone pendurado, balançando, como se alguém tivesse acabado de falar.
Desde então, aquela voz não me deixou.
Meses depois, em outra viagem noturna, outro trecho sem sinal, outra estrada deserta — celular inútil, grupo de zap mudo, ligo o rádio.
“Tem um barranco do lado esquerdo, uma árvore torta, que ninguém esquece de tão feia.”
Era a mesma frase. A mesma entonação. O mesmo pedido. Não respondi. Do outro lado, ninguém falou nada. Desliguei o PX. Senti cheiro de confusão.
A estrada seguia preta, sem céu, sem margem. No retrovisor, nada. Então o rádio, que estava morto havia horas, ligou, sem explicação.
– “Agora é você.”
O farol abriu a noite e guiou os meus olhos. À esquerda: o barranco. Ao lado a árvore torta. Feia, tive que admitir. Na frente: uma curva que não existia no mapa. Apertei o freio. O caminhão não respondeu.
E o rádio, sozinho, no canal 99, sussurrou:
— “Obrigado.”
O mundo apagou.
Acordei com o próprio grito preso na garganta. O caminhão estava parado.
Motor desligado. Chuva fina batendo no teto da boleia.
Eu estava deitado na cama estreita, com a camisa colada no corpo, o travesseiro úmido de suor. O painel marcava 3:17. Nenhuma curva, nenhum barranco, nenhuma árvore. Só o posto de beira de estrada, silencioso, três carretas dormindo ao redor, um cachorro magro passando entre os pneus.
Fiquei ali alguns segundos, tentando lembrar o que não era sonho. Respirei fundo. Ri de nervoso. Peguei o celular: sem notificações, sem chamadas, sem sinal. Peguei o rádio. Desligado. Na dúvida, girei a chave. O painel acendeu as luzes e notei uma coisa: o canal estava ajustado no 99.
Não era noite de dormir — era noite de seguir. Desci do caminhão, fui atrás de um café forte e lavei o rosto para continuar. Caminhoneiro descobre cedo: na estrada o aperto não some, mas a gente aprende a não ser vencido pelo medo.













