ARLINDO ARMANDO
Eu estava num posto grande, beira de rodovia, em Goiás, daqueles lugares que têm de tudo: lanchonete, chuveiro, borracharia, gente dormindo em rede, gente vendendo milagre. Eu tinha acabado de abastecer, conferido a amarração e tava pronto pra seguir quando ela apareceu na porta.
“Moço, você vai pra frente? Só até a próxima cidade.”
Eu olhei. Mulher sozinha na estrada, de madrugada, é perigo em dobro: perigo pra ela e perigo pra mim. Golpe existe. Sedução. Necessidade. E, ao mesmo tempo, abandono também existe.
A estrada mistura as coisas. Ela parecia bem arrumada demais pra quem está pedindo carona. Vestido simples, casaco leve, cabelo preso. Nenhuma ousadia, nem batom vermelho. Olhar firme. Sem tremedeira, sem pressa.
Os olhos dela eram verdes, mas não daquele verde fácil de explicar. Tinham a cor das coisas que a gente não olha duas vezes porque dão vertigem. Não brilhavam. Observavam. Eram olhos que não pediam nada, mas sabiam…
Eu perguntei o nome. Ela respondeu: “Tanto faz.” Isso me desarmou. Perguntei onde tava a mochila. Ela disse que não tinha. Perguntei o que aconteceu. Ela falou: “Fiquei pra trás, só isso.” E ficou calada.
Eu pensei em negar. Pensei na família, na carga, no risco. Mas tinha algo na voz dela que parecia pedir menos carona e mais… passagem ou dedo de prosa.
Ela entrou no meu caminhão como se já fosse dona do banco. Não no sentido de mandar — no sentido de pertencer. Subiu, sentou, fechou a porta com cuidado, como quem não quer fazer barulho no mundo.
Os primeiros quilômetros foram mudos. Ela olhava o asfalto como se lesse uma carta antiga. Eu tentei puxar conversa: se era da região, se precisava de ajuda, se tinha alguém pra buscar. Ela respondeu com frases curtas, educadas, sem detalhes. Um silêncio que não era grosseria — era solenidade.
Depois de um tempo, sem olhar pra mim, ela perguntou:
“Você tem medo de morrer sozinho?”
Hesitei.
Não foi “tem medo de morrer”, que me prendeu a respiração. Foi “sozinho”. Fiquei mudo com o sozinho ecoando na minha mente: “sozinho”, “sozinho”, “sozinho”…
Eu senti o estômago roncar, vazio, e mal acabara de comer naquela parada que tinha conforto, café forte e pelando. Caminhoneiro pensa nisso mais do que fala.
Mas a pergunta dela estava no ar. Até reduzi a velocidade e respondi do jeito que a estrada ensina: “Medo eu tenho de morrer devendo e prejudicar a família. Sozinho, a gente já vai um pouco, a cada dia.”
Ela soltou um sorriso pequeno, sem alegria. “Então você entende.” E ficou quieta de novo.
Na curva seguinte, eu senti uma coisa estranha: um cheiro no ar, a boleia mais fria, um perfume antigo, de sabonete barato e flor seca. Olhei pro banco — vazio. Não ouvi porta, não ouvi puxador, não senti o caminhão balançar com alguém descendo. O banco só estava vazio. O cinto, solto. Como se ela nunca tivesse existido.
Eu encostei no acostamento, com o coração batendo na garganta. Desci, rodei o caminhão com lanterna. Nada. Nenhuma pegada no chão empoeirado. Nenhum sinal de gente. Voltei pra cabine, banco do carona vazio. Sentei, fiquei um tempo olhando pro volante como quem olha pro próprio destino.
No posto seguinte, eu quase perguntei para o atendente se mulher costumava pedir carona ali. Mas vi que aquele posto não servia para aquilo. Com certeza ele iria responder: “Mulher? Aqui? Nunca? Nem nessa hora!”
Parou um colega. Aí ele baixou a voz: “Por que você deixou ela na estrada”?
Quase engasguei com os ovos fritos feitos na chapa.
“Você viu”? … perguntei, engolindo de uma vez metade do copo de café fumegante.
“Eu estava logo atrás”, falou com olhos arregalados de tão vivos.
“E você deu carona para ela”? – perguntei com esperança de decifrar o mistério.
O caminhoneiro fez o pai nosso, fechou os olhos e disse bem baixinho:
“Eu não. Evitei, não estou preparado. Tem uns que dizem que deram carona, mas com arrependimento. A mulher só pergunta coisa de morte.”
Eu não perguntei mais nada. Só paguei o café, desejei boa viagem e fui embora com aquele perfume preso no nariz.
Ela não queria chegar na cidade. Só não queria atravessar o escuro daquela estrada sozinha. E ela não escolhe caminhões e nem caminhoneiros. Escolhe tipos de solidão. Como a minha.
E se ela existiu mesmo foi a estrada me falando que eu já estive mais perto da morte do que imagino.












