ARLINDO ARMANDO
Teve uma noite que o sono vinha pesado. Sono daqueles que começam na pálpebra dos olhos e descem pelo corpo inteiro. A cabeça cheia de boletos, prazos, conversas mal resolvidas, preocupação que a gente traz escondida na cabine.
A pista parecia sempre um pouco mais longa do que ante e o motor virava quase um embalo de rede. A estrada estava silenciosa demais. O silêncio é um troço bom, mas às vezes empurra a gente para dentro dos problemas da própria cabeça.
Nessas horas, o perigo não é só a curva. É o pensamento que distrai você por um segundo. É o olho que fecha meio instante mais do que devia. É o esquecimento de que você está numa estrada. É o esquecimento de que você tem todo o direito do mundo, direito sagrado, de parar.
Muita gente acha que caminhoneiro fica acordado por café, rebite ou teimosia. No meu caso, não é nada disso. O que me mantém acordado é memória e falar com o caminhão – e ouvir as respostas dele como se ele fosse gente.
Eu estava diante da cilada do sono. A estrada parecia longa demais, que nunca iria acabar. O farol só iluminava asfalto. Não passava ninguém. Lugar deserto. A estrada testa, sempre testa. Mas também respeita quem carrega esperança mais do que carga.
O sono começou a me cochichar besteira e aí eu trouxe a memória para o volante.
Comecei a lembrar. A varanda de casa, sempre de luz acesa e a mulher sempre pronta a me receber trazendo notícias da estrada – e contar seus dias de guerreira, sempre. Comecei a lembrar que as crianças iam me perguntar se eu passei “naquela curva perigosa, onde tem um abismo.
Endireitei o corpo no banco, abaixei o vidro para o vento bater no rosto e falei: “fique firme, só mais um pouco”. Sim, na cilada do sono, eu também converso com o caminhão como se ele fosse gente.
Digo:
— Mais um pouco e chegaremos lá.
O caminhão responde do jeito dele, com o ronco firme do motor, como quem resmunga:
— Vai com calma aí, parceiro… quem tá cansado é você, não sou eu.
Eu rio sozinho.
Esse caminhão já teve outro dono antes de mim. Um homem bom de estrada.
Às vezes penso que ele ainda roda um pouco comigo, escondido na boleia e falando comigo pelo som motor.
— Fica tranquilo — eu digo — sei que você já viu estrada mais sonolenta do que essa.
O motor segue firme.
— Vi mesmo — parece responder — mas sempre cheguei no destino.
Então seguimos nós dois, cada um fazendo sua parte: eu cuidando da estrada, ele zelando por mim.
Quando cheguei em casa, as crianças me puxaram pelo braço, contando tudo ao mesmo tempo. Ela me olhou em silêncio. Depois me beijou como quem confere se eu sou real.
Naquela noite, dormi pesado. Sono de quem chegou inteiro.
Porque aprendi uma coisa na estrada: quando o sono arma cilada, a gente não briga só com café ou com teimosia. A gente precisa da memória das coisas boas, a casa, a família reunida me esperando voltar, a cerveja com os amigos.
E, se mesmo assim a cabeça começar a ficar silenciosa demais, eu faço o que sempre faço: converso com a máquina como se ele fosse gente.
Pode parecer bobagem. Mas entre uma lembrança boa e uma conversa na boleia, o sono perde força, a cabeça clareia e a estrada volta para o lugar dela.
É assim que a gente atravessa a noite. Um pouco de memória, um pouco de conversa com o caminhão… e sempre falando com ele sobre um bom motivo para chegar em casa.












