ARLINDO ARMANDO
Eu vinha rodando naquela madrugada com a sensação de que a estrada não tinha nenhuma novidade. O rádio chiava e o céu fazia charme de quem não quer clarear cedo. E eu, até aquela hora um solteiro convicto, pensei que a única companhia da noite seria o café do próximo posto – e muito provavelmente seria um cafezinho requentado que você bebe por obrigação.
Aquele trecho tinha história. Não dessas que viram notícia — dessas que viram lenda. Era um acostamento largo com caminhão que encosta e não explica por quê. Um trecho que motorista supersticioso evita olhar para o acostamento, como quem respeita um segredo.
Foi então que eu vi.
Um caminhão parado. Luz de posição piscando fora de ritmo — parecia flertar, mas daquele jeito meio desesperado, sabe? Encostei. Não por heroísmo. Para ajudar e por curiosidade mesmo. E, admito, parei porque a solidão daquela madrugada pedia companhia.
Ela desceu da cabine.
E ali a noite mudou de assunto.
Não era medo o que ela trazia — era aquele tipo de cautela de quem já aprendeu a negociar com o imprevisto. Cabelo preso de qualquer jeito, bonito, olhar firme, voz baixa. Disse que a marcha tinha sumido. Assim, de repente, como quem perde a paciência — ou a memória.
— Do nada — ela falou. — Como se alguém tivesse desligado o caminhão por dentro.
Aquilo não era frase de manual.
Abri o capô. Mangueira estourada. Coisa simples, em teoria. Mas a estrada… a estrada não estava simples. Tinha um silêncio ali que não combinava com dois motores ainda quentes. Parecia quase um recado. Ela estava sozinha — mas não era a primeira vez. Hoje correm histórias de mulheres que cruzam o país com as mãos calejadas, mas unha feita e o olhar firme. Aprendem a trocar peças, a desconfiar do silêncio e a seguir mesmo quando a estrada pede coragem.
Ela respirou fundo, amarrou o cabelo e disse:
— Não é hoje que essa estrada me leva — hoje eu passo por ela.
Fingi que não ouvi, fiquei calado. A gente aprende cedo que nem toda mensagem precisa de resposta.
Enquanto eu mexia no motor, ela segurava a lanterna. E vou te dizer: tinha um jeito ali — não sei se era o frio, se era a proximidade — mas a madrugada, que até então estava meio hostil, começou a ficar… cúmplice.
— O senhor sempre para assim? — ela perguntou.
— Só quando a estrada pede com jeitinho. Mas não precisa me chamar de senhor. Senhor só aquele que está lá em cima.
Ela riu. Baixinho. O suficiente pra desarmar qualquer assombração mais séria daquele acostamento de má fama.
Mas aí a lanterna falhou. E o clima mudou de novo.
Ouvi passos. De dentro da escuridão. Como se alguém estivesse chegando atrasado para uma conversa que não era dele. Ela ouviu também. Não disse nada. Só chegou um pouco mais perto. E, sinceramente? Não foi ruim. Ela tinha perfume de mulher.
— Melhor a gente resolver isso logo — falei, tentando parecer profissional e desinteressado.
Mas a verdade é que aquela noite já tinha decidido ser outra coisa.
Quando nossas mãos tocaram a mangueira ao mesmo tempo, o motor respondeu. Um estalo seco. Depois um ronco manso, quase educado. A marcha voltou — não com força, mas com concordância.
— Dá pra seguir — eu disse. — Até o próximo posto. E olha… se a estrada ficar quieta demais, não estranha. O silêncio só quer companhia.
Ela me olhou por um segundo mais longo que o necessário. Como quem mede confiança — ou risco.
— E o senhor? Vai também?
— Eu sempre vou.
Ela entrou na cabine, mas antes de fechar a porta, soltou:
— Se isso aqui fosse um filme ruim, eu diria que foi sorte te encontrar. Obrigada.
— Ainda bem que não é filme. Senão a gente não teria continuação – respondi com ousadia.
Ela sorriu e ficou iluminada. Daqueles sorrisos que a boca passou na fila da beleza e foi premiada.
Arrancou. E aí veio o detalhe. No retrovisor, por um instante, vi uma sombra no banco do carona. Boné antigo, cabeça baixa e recortado só pela penumbra — como quem já estava ali antes de mim. Parecia nítido, mas quando meus olhos piscaram a imagem sumiu.
No posto, ela estava lá, sozinha. Café na mão, viva, inteira — e um pouco mais leve.
— Funcionou — ela comentou como se agradecesse. Eu sorri meio desajeitado, confirmando o sim com a cabeça.
O frentista, que também servia no balcão, sem levantar muito os olhos, comentou em tom de conselho:
— Esse trecho de estrada pede companhia. Mas nem toda presença vem pra fazer o bem.
Quando voltei para o meu caminhão, reparei num rabisco no para-choque empoeirado. Nunca tinha visto, parecia marca de mão, nem nova, nem velha. Algo me dizia que era mão feminina. Entrei na cabine e fui conferir o celular.
Ela bateu leve na porta.
— Vai seguir?
— Vou.
— Então segue comigo até o próximo trecho. Assim um faz companhia pro outro. E tem um lugar para descansar que eu conheço bem – ela falou séria.
Pensei um segundo. A estrada já não parecia tão longa.
— Tá bom — respondi. — Mas só até onde a noite deixar.
Ela deu de ombros.
— Às vezes uma noite é tudo o que a gente precisa.
Engatei a marcha. E naquela madrugada, pela primeira vez em muito tempo, a estrada não parecia vazia.












