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“Obrigam dormir na boleia com um instrutor homem”, alerta caminhoneira

Mulher

Resumo

  • Falta de instrutoras faz mulheres passarem dias viajando ao lado de desconhecidos durante o treinamento. 
  • Liderança da categoria cobra mudanças nas transportadoras. 

Antes mesmo de assumir o volante de um caminhão, muitas mulheres enfrentam um desafio que nada tem a ver com dirigir. O problema começa ainda no treinamento exigido por diversas transportadoras, quando a motorista precisa viajar centenas de quilômetros acompanhada por um instrutor, quase sempre um homem.

Segundo Lucélia Pelegrini Venerozo, gestora do Sindicam de Ribeirão Preto e uma das principais representantes das caminhoneiras no país, esse modelo de capacitação tem gerado inúmeras reclamações por causa de situações de constrangimento e denúncias de assédio.

“Muitas empresas exigem que a motorista rode de 500 a mil quilômetros com um instrutor experiente para provar que está apta a dirigir. O problema é que praticamente não existem instrutoras mulheres. Então elas acabam viajando sozinhas e dormindo no mesmo lugar com um homem que nunca viram na vida”, afirma.

Em muitos casos, a viagem dura vários dias. Durante esse período, motorista e instrutor fazem refeições juntos, dividem longas jornadas e, quando param para descansar, muitas vezes precisam dormir na própria cabine do caminhão.

Para Lucélia, essa situação deixa muitas mulheres vulneráveis. “As empresas determinam esse treinamento tanto para homens quanto para mulheres. Mas muitas precisam dormir na boleia com um instrutor homem. Recebemos muitas reclamações de mulheres que passam por constrangimentos e situações de assédio”, relata. 

Segundo a dirigente sindical, muitas caminhoneiras desistem de denunciar por medo de perder a vaga logo no início da carreira. “É o primeiro emprego de muitas delas, então têm medo de reclamar. Acabam suportando situações que nenhum trabalhador deveria enfrentar”, diz.

Falta de protocolos aumenta insegurança

Lucélia afirma que muitas empresas ainda não possuem regras específicas para proteger as caminhoneiras durante o período de treinamento.

Segundo ela, faltam protocolos de prevenção ao assédio, canais seguros para denúncias e alternativas para evitar que a motorista precise compartilhar a cabine durante vários dias.

“Não estamos dizendo que todo instrutor comete abuso. A maioria é profissional. Mas basta um caso para marcar a vida de uma mulher. As empresas precisam criar formas mais seguras de fazer esse treinamento.”

Ela defende que as transportadoras ofereçam hospedagem quando necessário, ampliem a formação de instrutoras e adotem políticas rígidas contra qualquer tipo de assédio.

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