Aprendi cedo que a estrada tem seus próprios mapas. Nem sempre o que está pintado no asfalto bate com o que a gente vive atrás do volante Mas, estrada não mente, quem mente é mapa.
Foi numa madrugada sem lua, puxando papel entre Uberaba e Ribeirão, que eu caí no tal do KM 666. Não vi chegar. Só estava lá.
Parecia um ponto qualquer: placa torta, corroída de ferrugem, acostamento largo demais — estrada nunca dá espaço de graça. Um posto com ar abandonado, bombas secas, teto balançando com o vento. Uma luz amarela piscando sozinha, sem fio, sem poste, sem dono. Coisa errada.
O bruto perdeu força de repente. Não foi falha. Foi cansaço. Como se o motor tivesse desistido de mim, ou como se alguém tivesse puxado o freio da alma do motor.
Parei no acostamento, logo depois do posto. Desci, dei a volta no bruto. Silêncio grosso. Nem som de bicho. Nem vento tinha mais. O tipo de silêncio que estala no ouvido.
Desci com o pé pesado. Dei a volta no caminhão. Nada quebrado. Nada solto. Mas o chão… o chão estava marcado. Sulcos fundos de pneu. Muitas marcas no asfalto. Antigas. Algumas marcas de pneus indo numa direção, outras… na direção contrária.
Do lado do acostamento, não era barranco — era um precipício sem fundo, desses que puxam o caminhão só com o olhar; um passo em falso, um pneu fora da faixa, e não tinha freio, não tinha reza, não tinha segunda chance: era queda longa, sem barulho de impacto, como se o chão acolhesse a carga e engolisse motorista num suspiro suave.
Subi na boleia. Quando olhei no retrovisor, veio um farol se aproximando. Um outro caminhão, antigo, cabine quadrada, pintura daquelas que a gente só vê em foto de revista velha. Indo na outra mão da estrada, o motorista passou devagar, me olhou. Não acenou. Não piscou. O rosto parecia cansado demais, mas não abatido pelo sono. Ele vinha devagar. Lento demais pra quem roda naquela estrada. Passou colado. O motorista me encarou.
O rosto não era velho. Era gasto como peça que rodou além do limite. Não piscou. Não acenou. Só me encarou. E esticou o rosto pra fora da boleia para examinar a minha carga. A carga, a carga dele, rangia sem peso, como caixão vazio, mas afundava o asfalto. Apesar do caminhão antigo, a lona parecia muito nova. Estava esticada, bem amarrada, sem rasgo nenhum.
O rádio PX estalou sozinho.
— Tá pesado aí, parceiro?
A voz saiu arranhada, fundo de poço. E chamou, não pelo meu nome, mas pelo nome que só minha mãe usava. O outro nome que eu tinha, minha mãe nunca engoliu. Foi o meu avô que registrou do jeito dele.
O rádio chiava meu nome, o nome que só minha mãe usava. Nome que ela queria ter me batizado. Nome que já foi enterrado junto com ela.
Não respondi. Eu só responderia se fosse minha mãe. Só ela me chamava daquele jeito.
Girei a chave. O motor pegou na hora, liso demais. Liso como coisa que quer andar logo.
No retrovisor, o posto não estava mais lá. Nem a placa. Nem o caminhão velho. Só estrada.
Segui viagem com o estômago travado. O rádio mudo. No painel, o relógio marcava 02:17. Ficou assim até o dia clarear.
Mais tarde, num pátio cheio, ainda na madrugada, um caminhoneiro de barba branca me olhou torto e falou baixo, indo direto no assunto:
— Você parou onde não se para.
Antes que eu perguntasse “onde eu parei”?, ele completou:
— Quem fica ali, roda, não volta inteiro.
Ele virou as costas e foi embora. Sem querer conversa.
Quando amanheceu, procurei o KM 666. Não tinha placa. Não tinha posto. Não tinha nada. Aquele quilômetro só existia no mapa.
Mas eu sei que passei por lá. E sei que, em certas noites, tem caminhoneiro que entra naquele trecho achando que é só mais um quilômetro. Mas é um precipício. Alguns nunca mais aparecem.
Graças a Deus, fui poupado.
O bruto me trouxe de volta. Mas desde então, quando o rádio chia sozinho, eu sei que é um aviso… E eu nunca respondo.













