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O homem do acostamento

Homem solitário pede carona em estrada rural sinuosa, cercada por eucaliptos, com o polegar levantado e vestindo chapéu escuro.

Por Arlindo Orlando

Ele sempre aparece no mesmo trecho. Não importa se é verão ou inverno, se o céu tá limpo ou carregado, se eu tô puxando grão, aço, bebida ou carga seca. Entre duas curvas longas de BR, onde o eucalipto faz parede e o acostamento parece largo demais pro lugar, lá está ele: chapéu escuro, camisa clara, calça poeirenta, o polegar levantado como se pedisse carona desde o início do mundo.

A primeira vez que vi, foi de forma traiçoeira. Caminhoneiro tem um código não escrito: estrada é família meio torta, mas é família. Reduzi, dei seta, encostei. O homem não veio. Ficou parado, de costas, como se não tivesse me visto. Dei uma buzinadinha curta — nada. Esperei alguns segundos e pensei: “É golpe.” Arranquei. Tive que esperar para entrar na pista, porque uma carreta pesada tinha preferência.

No rádio, o colega da carreta falou, sem eu dizer nada: “Não para pra esse aí, parceiro.” A voz dele veio como aviso de pai. Perguntei por quê. Silêncio. Depois, só uma explicação esquisita: “Ele tinha uma noiva. Depois que ela foi embora, ele pirou.” Eu respondi “obrigado parceiro”. Agradeci com vontade de saber mais da história. Mas não sou de conversa no rádio. E, por instinto, nada perguntei. 

Na segunda vez, meses depois, eu já tava mais calejado e mais curioso. Passei devagar, olhando pelo canto do olho. Ele virou o rosto de leve, como se soubesse quem eu era. E aí eu vi: o rosto era humano, mas tinha algo errado na proporção. Os olhos… não era que faltavam. Era como se estivessem fundos demais, vazios, duas janelas sem casa. Nunca tinha visto um olho assim, tão pequeno. Senti um calafrio estranho que não combinava com o calor do motor.

No posto seguinte, perguntei ao frentista mais velho, daqueles que parecem conhecer toda a história dos caminhões pelo som do freio. Ele limpou a mão no pano, olhou pros lados, e disse: “Esse aí teve um acidente aí perto. Anos atrás. Capotou de noite, ficou preso pedindo ajuda. Dizem que passou gente… e ninguém parou.”  O pior: “ele jura de pés juntos que a noiva estava no carro dele. E desapareceu. A polícia investigou. Nunca existiu uma noiva. Mas, no carro,  encontraram um véu e um par de alianças. 

Sem conter a curiosidade, indaguei: E cadê as alianças? O que foi feito?

O frentista piscou o olho: “Quem parou e desceu da boleia, naquele acostamento, diz que ele colocou nos dedos. As duas”. 

Depois cuspiu no chão, como quem espanta mau agouro. “Agora ele pede carona. Não pra chegar. Pra não ficar sozinho. E, se você parar, ele não sai do lugar. Às vezes, até desaparece para o meio do mato”. 

Depois disso, passei a evitar olhar para aquele acostamento. 

Mas tem fim de tarde que escorre pra noite e o cansaço senta no banco do carona. A estrada começa a brincar com a cabeça da gente. A vontade de chegar logo, o céu ficando roxo, o ronco constante do motor e aquela hipnose do asfalto puxando o pensamento pra longe.

Em duas ocasiões — juro pelo que carrego e pela saudade de casa que deixo pelo caminho — juro, eu vi, pelo retrovisor, exatamente naquele ponto, um homem de chapéu branco e uma mulher de véu. Ela ia de braço dado com ele, passos lentos, como quem não tem pressa porque já perdeu o horário faz tempo.

Reduzi a marcha. No reflexo tremido do retrovisor, vi os dois, enfim, conseguindo carona. Não era carro comum. Era um carro funerário, desses antigos, compridos, pintura preta já comida pelo tempo, cromado fosco, farol amarelado de quem rodou mais à noite do que de dia. Parecia carregar mais silêncio do que peso.

Nas duas vezes, diminuí mais ainda a velocidade – para não perder de vista. Foi quando os faróis do carro funerário se apagaram de uma vez, como se alguém tivesse soprado uma vela. O motor do meu caminhão estremeceu de repente. Na primeira vez, acelerei por instinto. Na segunda aparição, acelerei por medo.

Nas duas vezes que olhei, mesmo acelerando, preguei o olho no retrovisor. De repente, nada. Nem carro. Nem noivo. Nem noiva. Nem acostamento direito. 

Desde então, quando passo por aquele trecho, faço uma coisa besta — mas necessária. Dou três buzinadas curtas e sigo sem reduzir. Não é medo. É respeito. Porque tem gente que, depois que morre, não aceita “não”.

E estrada nenhuma gosta de desfeita.

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