ARLINDO ARMANDO
No aplicativo da transportadora, o horário piscava como aviso: ENTREGA — 03:00.
Quem roda com carga sabe. Horário esquisito nunca é à toa. Tem entrega de madrugada por causa de fila, por causa de terminal, por causa de sigilo. E tem entrega de madrugada porque ninguém quer ser visto. Nem ver. Mas horário de entrega é como se fosse recado de mãe. Tem que cumprir.
O frete era de uma transportadora “certinha”, dessas com aplicativo, uniforme limpo, atendente falando manso no telefone. Tudo parecia normal demais.
Carga seca, paletizada, a mercadoria vem empilhada, amarrada e padronizada em blocos, pronta pra ser movimentada por empilhadeira. Carga sem cheiro, sem risco declarado. O problema não era a carga. Era o endereço.
“Vicinal sem nome. Após a ponte, siga 7 km. Portão preto.”
Só isso.
Nenhum ponto de referência. Nenhuma empresa. Nenhum CNPJ. Nem nome de sítio. Nada. Endereço assim, na estrada, é como placa de cemitério: a gente passa na porta, mas não quer parar.
Saí da rodovia umas duas e meia da manhã. O celular no painel piscava “sem serviço”, mais do que mostrava rota. Tocava uma seleção de músicas que eu nem me lembrava de ter selecionado.
Próximo ao endereço, a neblina vinha rasteira, lambendo o asfalto. A estrada parecia um túnel de fumaça branca. O caminhão ia pesado, suspirando nas marchas, como se também estivesse com preguiça de seguir.
Quando vi a ponte, deu aquele aperto. Não era medo de ladrão nem de multa. Era aquela conta que a gente faz sem perceber: lugar ruim, sem movimento, sem sinal, sem testemunha.
Depois da ponte, a estrada de terra começou. Escura. Cheiro de mato seco e diesel velho. Eu fui contando os quilômetros no painel, mas a conta não fechava. O portão apareceu antes dos sete. Bem antes.
Portão preto, alto, sem placa, sem cerca elétrica, sem câmera. Só um buraco de terra no meio do nada. Parei. Desci. Buzinei duas vezes.
O portão abriu sozinho.
Devagar.
Sem barulho de motor.
Sem ranger de ferro.
Aquilo me gelou mais do que se tivesse uns cinco caras armados.
Entrei.
O galpão era enorme, mas apagado por fora. Dentro, uma luz branca estourada, dessas de hospital ou necrotério. Cor que causava confusão nos olhos.
Quatro homens vieram. Todos com uniforme cinza, sem logomarca, sem crachá, sem nada. Cara de quem não pergunta nome. Nem responde.
Um deles só falou:
— Encosta ali.
Nem “bom dia”. Nem “tudo bem”. Nem “documento”.
Descarregaram rápido demais. Organizados demais. Silenciosos. Empilhadeira entrando e saindo como se estivesse treinada pra não fazer barulho.
O estranho não era a pressa. Era a falta de ritual. Ninguém pediu canhoto. Ninguém conferiu volume. Ninguém assinou nada.
Eu falei, tentando manter a voz firme:
— Preciso do comprovante. Sem canhoto eu não saio.
O sujeito mais alto me olhou. Lançou um meio sorriso. Mas com a boca fechada. Os olhos me encararam e ele se aproximou do meu ouvido e disse em tom baixo e grave.
— Aqui a gente não assina. Aqui a gente só recebe.
— Mas meu nome tem que constar…
Ele apontou pra uma prancheta pendurada na parede. Uma lista enorme. Vários nomes. Datas antigas. Algumas de anos atrás.
Ele acendeu uma lanterna e apontou para a parede. No meio, lá estava o meu nome completo e CPF. Escritos com letras tortas, como se alguém tivesse copiado de um documento amarelado.
Meu corpo esfriou dos pés até o pescoço.
— Isso tá errado…nunca fiz entrega aqui — eu falei.
O homem chegou perto demais. Não gritou, não fez gesto. Só ficou ali, perto o suficiente pra eu não conseguir dar um passo pra trás. Cheiro de graxa mecânica. Falou baixo.
— Aqui, o que chega não volta. Nem quem pergunta demais. Só assina aqui.
E mostrou um papel com letras miúdas, dessas que pregam peça na gente. Rabisquei meu nome de um jeito difícil de decifrar.
– Este garrancho de letra, ninguém vai entender. Mas fica tranquilo. Seu nome está aqui no sistema.
Eu não respondi mais nada.
Virei as costas, entrei no caminhão e dei partida. As mãos tremiam no volante. O motor demorou a pegar, e aquele segundo pareceu uma vida inteira.
Quando passei pelo portão, olhei no retrovisor. Tive a impressão de que o galpão estava menor. Como se estivesse se afastando rápido demais. Ou como se nunca tivesse estado ali.
Acelerei. Acelerei, sem cálculo. O pé foi mais fundo do que eu costumo ir com carga. A estrada de terra começou a pular, o caminhão chacoalhando. Nem conferi velocidade. Só queria distância. Qualquer distância.
Uns dias depois, parei num boteco de beira de estrada, desses com sinuca torta, desnivelada, pano gasto e com tira-gosto caseiro.
Tinha um caminhoneiro velho sentado no canto, boné de marca de posto de gasolina, jeito de quem já viu coisa demais na estrada.
Contei a história pra ele.
Ele nem se surpreendeu. Só falou:
— Portão preto?
Eu confirmei.
Ele coçou a barba e disse:
— Aquilo não é empresa, não. É depósito fantasma.
— Fantasma como?
— Some mercadoria, some documento, some gente, some carga do sistema. Não precisa matar ninguém.
Eu perguntei:
— E por que eu voltei?
Ele me olhou sério:
— Porque você não servia pra sumir. Servia pra assinar recibo. Recibo por uma carga que, um dia, alguém vai dizer que desapareceu.
Eu olhei espantado e o velho disparou:
— Na estrada tem lugar que não rouba só carga. Tem lugar que te colocam no lugar errado da história.
Agradeci e segui viagem. Foi ali, na boleia, que me veio um medo novo.
Não é medo de assalto. Nem de acidente. Quando esse depósito fantasma cair — e sempre cai — alguém vai ter que responder. Vão procurar quem montou o esquema e quem participou. E vão ver que o meu nome está registrado no sistema.
Mas eu já sei o que vou dizer, se for o caso.
— Olha, Doutor, aquele velho do boteco sabia demais. Sabia do portão. Sabia do galpão. Sabia até como o golpe funcionava.
E eu nem tinha dito pra ele de qual estrada eu vinha.
Confira outras crônicas: Diversão é no O Caminhoneiro Legal.













