ARLINDO ARMANDO
Eu conheci o estranho num posto de parada que eu jurava que já tinha visto antes — e, ao mesmo tempo, não lembrava de existir exatamente naquele lugar. Era noite de tempo virando, vento atravessado, nuvem forte rasgando a serra. Eu puxava carga leve, mas a estrada estava pesada: chuva grossa e caminhões apressados passando do lado como se fossem blindados contra o destino.
O posto era simples. Uma lanchonete com luz amarela, uma bomba antiga e um pátio limpo demais. Entrei só para lavar o rosto e tomar café. O cara estava no balcão, encostado como se esperasse por mim. Não era velho nem novo, mas tinha uma calma de quem já viu muita coisa e não faz questão de contar. Rosto comum, roupa comum, olhar incomum.
“Vai descer a serra agora?”, ele perguntou, como se soubesse do meu itinerário.
Eu respondi que sim. Ele deu um gole no café e falou, sem pressa: “Então você vai bem devagar depois do quilômetro… deixa eu ver… 184.”
Eu ri, por educação. Caminhoneiro vive de dica de estrada, mas também vive de desconfiar de conselho fácil. Só que ele continuou, e cada detalhe que dizia batia com coisas que eu sabia porque já tinha passado ali muitas vezes: uma curva cega com remendo de asfalto, uma ponte estreita com proteção de metal todo amassado e um trecho onde o rádio fica mudo.
Então ele falou, com voz grave e pausadamente: “E quando o caminhão da carroceria verde te fechar, você não buzina. Você reduz e, aí, deixa ele ir.”
No início achei que ele não batia bem da cabeça. Mais um maluco vagando pela estrada. Ele insistiu para ter cuidado com o caminhão verde. Aí, aquilo começou a me irritar. Ninguém gosta de roteiro pronto da própria viagem. Mas a voz dele não era de quem queria mandar — era de quem queria evitar.
Quando eu fui pagar, o frentista falou: “Ele já pagou o seu café.”
Olhei pro lado — o estranho estava colocando uma mochila pequena nas costas, como quem vai embora. Aí veio a frase que me fez hesitar: “Me dá carona até passar a serra.”
Eu devia ter dito não. Eu sei. Só que tinha algo nele… uma espécie de seriedade sem ameaça. Ele entrou, sentou, educado, colocou o cinto sem eu pedir. E, por um tempo, ficou só olhando a estrada, como se escutasse o coração da rodovia. Dei a partida com ele calado.
A chuva engrossou. O caminhão parecia avançar dentro de algodão molhado. Em certos pontos, eu não via o fim do capô. Foi quando ele começou a falar baixo, como se estivesse narrando o movimento da estrada.
Aumentou o tom da voz e começou a me orientar:
“Agora, encosta um pouco mais à esquerda. Tem água acumulada na direita.”
“Não pisa no freio na curva. Deixa ele segurar.”
“Desliga a música. Ouve o motor.”
Eu obedeci sem perceber que obedecia. E então veio o que ele tinha previsto: um caminhão de carroceria verde apareceu no lado, costurando faixa como se o asfalto fosse dele. Ele me fechou. A raiva subiu. Minha mão foi pra buzina.
O estranho segurou meu pulso com firmeza, sem violência. “Não.”
Eu reduzi. Deixei o verde ir. Dez segundos depois, vi as lanternas dele sumirem com a traseira dando uma rabada feia. Em seguida, um clarão e um estrondo de ferragens. Depois um silêncio que anunciava a estreia de uma tragédia. Ele tinha aquaplanado e batido no guarda-corpo da ponte logo adiante — exatamente no quilômetro onde o estranho tinha me mandado não arriscar.
Eu parei no acostamento seguro, tremendo. Desci correndo, peguei o celular pra chamar pelo socorro e me aproximei do precipício. Não ouvi gemido e nem grito de dor.
Quando voltei virei pro banco do carona, ele não estava mais lá. Nenhum som de porta que abriu e fechou. Nenhum passo. Nenhum som. Uma coisa tinha ficado: no painel, um santinho simples, sem nome de igreja, com uma frase escrita à caneta: “Escuta sempre teu anjo.”
Ajudei no que pude. Ambulância veio. PRF sinalizou. Fiz o que caminhoneiro faz: segura a barra até a poeira baixar.
Segui viagem diferente.
Quando cheguei em casa, ela estranhou meu silêncio. Eu abracei as crianças, beijei a testa delas, uma por uma, e disse: “Hoje eu tive carona de anjo.”
O mais velho riu e disse: “Lá vem o pai com histórias. Anjo voa, anjo não anda na boleia de caminhão”.
Eu não corrigi.
Mas naquele dia eu fiz uma promessa — promessa de homem que já viu o farol da morte acender perto demais. Quando eu largar a vida na estrada vou voltar para a profissão que era do meu avô: pintar igreja pequena de cidade esquecida. Vou subir em andaime simples, pincel na mão, retocar asa de anjo descascada pelo tempo. Vou ajeitar coroas de anjinhos gastas e pintar dourado desbotado de altar antigo. Dar cor nova pra santo apagado, porque alguém, lá em cima, mandou um carona segurar minha mão na estrada da serra.
Eu poderia ter ficado naquela curva. Mas Deus decidiu que eu ainda tinha estrada pela frente.
Confirma: O depósito fantasma













