Você já imaginou passar o Natal em um curral de beira de estrada, com um monte de gente estranha e sem conseguir contato com a família? Pois é, isso aconteceu comigo no final dos anos 1970, época em que o celular não existia nem na imaginação do mais criativo dos caminhoneiros e até o telefone com fio era luxo. E eu estava no meio de uma estrada de terra, no interior do Mato Grosso do Sul, em pleno período de chuva.
Meu nome é Raimundo e esse é um caso que eu passei no finalzinho de 1979. Era 24 de dezembro, uma segunda-feira. Eu tinha deixado uma carga de cimento em Três Lagoas e estava louco pra chegar em casa, em Inocência. A distância era de uns 150 kms, o calor estava forte e a estrada era de terra, mas isso não assustava o caminhoneiro acostumado àquelas paragens.
Saí de manhãzinha com o sol nascendo e minha previsão era chegar em casa antes do almoço. Mas, como a gente diz hoje – sóquenão. Uma hora depois, o céu começou a nublar – a gente não tinha previsão do tempo na época. Tinha chovido nos dias anteriores, mas eu ignorei que a estrada podia estar ruim. Queria a minha casa!!!
No caminho, a chuva despencou, mas eu decidi seguir. Tinha pouco carro na estrada. Dois – uma Brasília e uma Caravan – me ultrapassaram lá no começo da viagem e continuaram a seguir na minha frente. Estavam juntos, cheios de crianças dando tchauzinho pela janela.
De repente, os dois carros começaram a derrapar na lama. A Caravan escorregou de vez e caiu numa vala rasa do acostamento. A Brasília estava atrás e paramos os dois para ajudar a tirar a Caravan da vala. Continuei a viagem bem devagar, desviando dos atoleiros. E logo os dois carros me ultrapassaram de novo, buzinando, e eu os perdi de vista.
Numa baixada da estrada, bobeei, a roda do meu caminhão afundou na lama e um lado da carroceria inclinou. Travei no lugar. Eu me arrisquei e me lasquei. E olha que já tinha uma caminhonete atolada lá!
Saí do caminhão e fui buscar socorro num bar de beira de estrada, a uns 200 metros atrás de onde eu atolei. Do outro lado da estrada, os dois carros já ocupavam o curral da propriedade, feito para o descanso de peões que tocavam boiadas (aliás, foi só depois de uma boiada passar pelo atoleiro, dois dias depois, que consegui desatolar).
Eram duas famílias e 6 crianças de tudo quando era idade. Um dos motoristas, o Gerson, negociava a compra de duas galinhas para improvisar a ceia de Natal. Eles tinham tudo para acampar e foram mais cuidadosos que eu – resolveram parar quando viram o atoleiro.
Ninguém tinha tração pra me tirar do buraco. Eu não tinha para onde ir. Ia passar a véspera de Natal sozinho, no meu caminhão. Mas o pessoal dos carros me chamou para a ceia. E, olha, foi um Natal engraçado, com contação de piadas, cantoria com as crianças na beira da fogueira, muita cerveja, galinha ensopada feita no fogãozinho de camping, torta de liquidificador de um dia antes, arroz, farofa, laranja e panetone de sobremesa. Nada de árvore com bolinhas coloridas, troca de presentes e estouro de champanhe. Só gente alegre, curtindo aquele momento único que Deus nos deu!












